.:: quem sabe? ::.
Quando abri os olhos naquele, só conseguia pensar: "eu queria estar sonhando!". Gastei alguns minutos daquela manhã olhando pro teto antes de perceber que era mesmo necessário levantar pra enfrentar aquele dia. Aquele dia que eu tinha feito tanta questão de adiar havia chegado e eu não tinha mesmo idéia nenhuma do que poderia acontecer.
Mas eu sabia as coisas que teria que fazer: tomar um banho para dar coragem, ficar linda e segura, pegar as malas e ir. E apesar de não gostar de viajar de ônibus, fiz tudo sem reclamar, uma sucessão de gestos mecânicos que somente consistiam em ir.
Foram três longas horas de pensamentos idiotas. Meu irmão tinha me emprestado o discman dele como quem diz "boa sorte" e eu tinha levado os dois CDs que estavam em cima da mesa e um livro há muito tempo começado. Mas aquela correria de paisagens se embaralhava com minha ansiedade e eu não conseguiria lembrar o rosto de nenhuma das pessoas que estavam naquele ônibus comigo.
Eu não senti fome e além disso já tinha roído todas as minhas unhas na última semana. De qualquer jeito, na minha mochila tinha uma porção de chicletinhos verdes, um caderno sem pauta, um lápis e uma caneta (eu sempre esqueço a borracha), um espelho, uma pinça, um casaco e um creme hidratante; além do discman e do livro. Pelo que consigo me lembrar, dezessete chicletes em três horas deve ter sido meu recorde.
Eu estava tão nervosa que até fiquei calma, paradona, olhando o nada. O motorista veio me avisar: "Moça, essa é a ultima parada. Esse é seu destino. Se você for mais longe, tem antes que parar aqui, de qualquer jeito." Provavelmente ele não tinha noção exata do que estava dizendo - pelo menos não do jeito que eu entendi.
Eu desci. Peguei minhas malas, andei uns 100m, parei perto do portão de saída e sentei sobre a bagagem. Quase doze anos e eu ainda não sabia o que fazer. Comprei mais chicletes, joguei alguns pensamentos no lixo e decidir sair.
Apesar dos olhos verdes, só o reconheci pela descrição da roupa e pela bengala. Olhei pra frente, não sorri nem chorei, ofereci um chiclete e ele aceitou. Eu não estava com vontade de falar.
Escrito por Água... às 00h08
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